Sobre a Maria

By coco

Em Natal, talvez por essa estabilidade de um mês tão nova para nós viajantes, conseguimos experimentar e criar Maria, monólogo para quatro objetos. Este processo tinha qualidades próprias da viagem, foi compreendido conforme foi criado e foi aparecendo por partes: como uma cidade se apresenta diante de nós quando vamos nos aproximando dela.

I Parte: o texto

Assim surgiu o texto, um querer dizer sem explicar, onde a palavra como material revelava a sua qualidade elástica. Uma lógica que anula contrários foi construída porque como Maria mesmo diz: “Não dá para ver nada. Nada mesmo. Branco e negro  são a mesma coisa. Nos dois não dá para ver nada.” Na ambiguidade da frase, a repetição foi a ferramenta para revelar: “Eu acho que estava acordada. Acho. Não tenho certeza. O que lembro sim é que estava escuro. Disso eu lembro porque…”

II Parte: a personagem

Quem era essa pessoa? Sabíamos que falava de forma cortada. Terminava suas frases sempre de forma incompleta. Era como se estivesse sendo obrigada a falar. Nas várias leituras,  apareceu a sensação de ser julgada. Ela, Maria, estava sendo julgada pelo prazer de brincar com a lógica preestabelecida, com os conceitos absolutos e com a ideia do feminino reduzida a sua função social. Por tal façanha, ela será julgada. Ela será julgada por ter sentido prazer, ter esquecido de marido e filho e ter achado o sentido de se sentir viva.

III Parte: as ações

O que essa mulher estava fazendo? Quando pensamos em ações, inevitavelmente, temos que pensar em contexto. Onde ela está para fazer o que ela está fazendo? Desde o início, a figura de uma mulher se arrumando apareceu. Uma mulher que durante o dia trabalha cuidando de casa e a noite se transforma para sair. Pouco a pouco, esse arrumar foi sintetizado em: lavar o cabelo, pintar as unhas, colocar sapatos e comer algo antes de sair. As ações começaram a ser construídas com um bacia, um esmalte de unhas, uns sapatos de salto alto e uma tangerina. Uma vez que começou a experimentação, o tempo da ação foi cada vez mais lento. As poucas ações requeriam de uma atenção minimalista na sua criação. Assim, a ideia de julgamento se incorporou nas ações. Definitivamente, estávamos diante de alguém que estava sendo julgada na sua própria casa, estava sendo obrigada a falar e,  muito provavelmente, não sairia viva. O desenho rectilíneo dos  objetos construíram um quadrado perfeito. Talvez, por isso, nossa necessidade de quebrar o quadrado e afastar o sapatos. Esquecê-los.

IV Parte: e se fez a luz

Ela entrou para revelar. “A luz conta a história a partir do que esconde”, disse Anatol. A luz cria a atmosfera entre o inquisidor e o desejo da Maria. Não escolhe um lado, dialoga com os dois revelando e escondendo, talvez por isso é a única sobrevivente.

 

Vídeo completo disponível em: Maria, monólogo para quatro objetos


Posted from Natal, Rio Grande do Norte, Brazil.

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