Os Reinventores da Matilda

By anatol

Na foto está o Sr. Valter e a sua esposa, que faz uns suspiros deliciosos. Do filho, por desencontros no tempo e a constante ocupação, não conseguímos nenhuma foto, talvez essa oportunidade surga mais tarde. No fundo está a Matilda, orgulhosa do seu coração novo.

E essa é a história do seu encontro.

A Matilda estava com problemas rítmicos no coração, o motor. Ele abanava, perdia força e se comportava de uma maneira estranha. Nos, leigos na arte de compreender os corações das máquinas, achavamos que era uma problema de afinação como por exemplo os tempos de ignição ou uma outra coisa de fácil solução. Acontece que, no Riacho Doce, toda gente conhece toda gente e rapidamente fomos encaminhados para o senhor que figura na foto. Mas somente fomos avisados que este mesmo senhor era muito bom mecânico de kombi, fusca e semelhantes, nunca ninguém nos informou que era também perfecionista exímio, tal como é a sua esposa na feitura dos suspiros.

E nos entregamos a Matilda como se entrega um ente querido para as mãos de um médico ao senhor Valter. Ela ficou durante uma noite em observações, e, na manhã seguinte, apareceu o “médico dos motores” na nossa porta, a porta da casa de Jorge para ser mais exacto. “Más notícias!” dizia ele, “o cabeçote …” e fazia aquele sinal que nunca queremos ver de um médico, mesmo que seja um de motores, e depois explicou que só metade do motor de Matilda estava realmente em funcionamento, e que tinha que abrir o motor e ver o que podia fazer …, se não …
Se o coração de Matilda estava nas mãos do senhor Valter, os nossos agora receberam um valente susto.
Assim o motor foi aberto pela primeira vez, e o resultado da cirurgia exploratória, mais uma vez nos assustou: “o cabeçote …” e o mesmo sinal que já nos tinha assustado logo pela manhã. “Com isso não fazem mais do que quinhentos quilómetros” e outros diagnósticos do mesmo género. O cenário se pintava em cores pouco favoráveis e até Matilda estava triste, de capôt aberto e sem motor, para não falar das nossas contas orçamentais, parecia que até o computador que guarda estes números de numerário estava com receios do seu futuro.
Aqui entra o filho do senhor Valter, mecânico desde a sua nascença e por “obrigação” familiar, como descobrimos  em conversas posteriores. Agora faz outras coisas como portões eléctricos e sistemas de vigilância, sempre com o rigor aprendido com o pai, mas é um óptimo guia pela selva mecânica que é Maceió. Com ele toda e qualquer peça para automóvel se arranja e pelo melhor preço. No mesmo dia apareceu com uma lista de peças e respectivos orçamentos. Dada a nossa situação e o projecto “teatro pra viagem” pouco mais restou para além de escolher o orçamento mais em conta e seguir em frente. Uma condição, no entanto, conseguimos “impor”: um workshop de motor de kombi, dado pelo mestre, o próprio senhor Valter para mim, que agora tento relatar esta história. Isso significa que nos foi permitido “ajudar” em todas as operações executadas na Matilda.

No dia seguinte deitamos mãos à obra. Senhor Monteiro júnior arranjou espaço na sua agenda apertada e foi connosco cumprir a lista de peças: um cabeçote rectificado, um jogo de canaletas, um jogo de juntas e outras coisas que aqui não precisam de ser alistadas. O cabeçote, bem, era rectificado, por razões orçamentais claro, e, é claro, chegado às mãos de senhor Valter, provocou outra vez aquele sinal do polegar apontado para o chão: “a rosca das velas assim não se apresenta! Volta para lá e diz quem entrega coisas assim é um ………………..”. E assim foi. Mais uma vez com a imprescindível ajuda do senhor Monteiro filho. O recado não foi transmitido na sua íntegra verbal mas o resultado foi o pretendido, um cabeçote pronto para uma longa viagem.
Ainda no mesmo dia foi montado, com a tal “ajuda” e sempre acompanhado por comentários como “faz assim” ou “o ‘L’ de 10” e algumas anedotas a jeito de mecânico sábio. A montagem do próprio motor ficou para a manhã seguinte.

Durante o nosso café matinal, já preparados para receber Matilda de volta no activo, repetiu-se o cenário: o senhor Valter chamando na porta, com o polegar virado, dizendo “tem que abrir de novo”, “não está bem” etc., apesar do sol escaldante o dia apresentava-se bastante escuro. O coração de matilda funcionava, mas fazia um barulho, desgostoso para mecânico sábio, mecânico esse que não larga mão enquanto não souber porquê e como. “Tem que abrir e só depois …”.
O motor foi aberto, mais uma vez, mas agora por completo. Tudo que é parafuso, junta, rolamento ou folga foi inspecionado para chegar ao novo diagnóstico: “temos que rectificar o bloco central, as vielas, …”. Já não eram meros diagnósticos, até o senhor Valter ficava triste com cada notícia negativa, todos nos faziamos parte da mesma equipa procurando salvar o coração de Matilda. E a senhora Monteiro nos apaparicava com petiscos.
Esse último diagnóstico acabou com qualquer hipótese de orçamentar seja o que for, somente restava seguir em frente. O computador dos números numerários parecia ter tendéncias suicídas até.
A situação foi salva, mais uma vez, pelo senhor Monteiro junior que prontamente dispôs dos seus conhecimentos intrínsicos da selva maceiénse, e a nova lista de peças e rectificações foi cumprida em tempo recorde. Somente a rectificadora demorou um pouco a mais, segundo a opinião do senhor mecânico sábio, e quem sabe, sabe, e ponto. (segundo um velho amigo meu quem não sabe, ensina e o senhor Valter definitivamente não se deixa ficar pela teoria)

Finalmente, e com a última lista cumprida até ao último ponto, prosseguimos com a nova montagem  do motor. Matilda e todos nos estavamos ansiosos. Tudo que poderia ter alguma importância tinha sido rectificado ou substituído por peças novas.
A montagem seguia no seu ritmo, com todo cuidado e rigor possível, todos os procedimentos cumpridos na sua ordem exacta, e, como era sábado e o senhor Monteiro júnior tinha espaço na agenda, eramos três cuidando do coração de Matilda. A sensação era de cuidados intensivos na recta final. Com tanta mão e ritmo não demorou muito. Verificar a folga do volante (do motor, coisa que se aprende, e depois, na emoção e vontade de contar a história, sabem …), do eixo de comando e por aí fora foi levado muito a sério, rigor de quem sabe.
E assim o motor voltou para a Matilda. Todas as espectativas …
Já era escuro, hora de jantar, e assim, mais uma vez, ficou para a manhã seguinte o grande momento.

Na manhã seguinte, tudo pronto, Matilda, com imensa vontade, arranca o seu motor, ainda por afinar algumas coisas (lembrem aquelas coisas de fácil solução), pega na primeira tentativa, mas o senhor Valter somente abana a cabeça e diz: “Tem que abrir de novo”.
Quando mecânico fala assim, nem se discute, de voz baixinha só se pode perguntar em tom de desespero “o quê é que foi?, o quê é que não está bem?”.  Quem pergunta isto e assim tem que estar preparado para uma resposta rápida e concisa. E assim foi: “Esse barulhino aí. Tac, tac, tac! Assim não sai daqui! Seria vergonha de mecânico!”
Na seguinte desmontagem, ainda durante a manhã, e mais uma vez até ao último parafuso, tudo foi medido e verificado e tudo tinha que passar pelas mãos de quem sabe, o senhor Valter. E foi descoberta, a fonte do barulho, uma folga numa peça supostamente nova, vindo da rectificadora, a que comanda o distribuidor de igniçaõ e aciona a bomba de gasolina. Senhor Valter ficou indignado e somente disse: “Agora é comigo. Eu tenho uns amigos dos tempos antigos … Nunca, em 30 anos com estes motores vi coisa assim! Eu resolvo e amanhã de manhã está pronto!”. Penso que não existe argumento quando alguém fala assim. Matilda estava nas melhores mãos e tudo dependia do senhor Valter e dos seus amigos dos tempos antigos. Sem “ajuda” possível.

Outra vez de manhã, no processo devo ter aprendido que coisas importantes acontecem durante as manhãs, e Matilda estava pronta. Numa segunda-feira! Cedo de manhã! “Não está como eu quero”. “Tem um barulinho chato”. Mas estava pronta. Senhor Valter só mencionou que conseguiu uma peça de substituição numa sucata que estava melhor que a supostamente nova, “entrou a pressão”. Matilda, com o seu coração novo, até dava saltinhos de alegria. De resto, so falta contar que a familia Monteiro nos ofereceu não um, mas dois mamões deliciosos, para a viagem. Não aguentamos e comemos um, logo na manhã seguinte. E falta dizer que o senhor Valter continua a tratar de kombi e fusca e semelhantes. E claro, que será lembrado em cada quilómetro da nossa viagem.

Obrigado

Maria Consuelo, Matilda e eu, agora sabendo bem mais de motor de kombi

1 Response to Os Reinventores da Matilda

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